segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Arte, nudismo, pedofilia, censura e outras polêmicas


Arte, nudismo, pedofilia, censura e outras polêmicas
por Ery Lopes

Assistimos nos últimos dias a um acirrado debate público, de “pessoas comuns” nas redes sociais a “personalidades” do universo das artes e de categorias diversas, sobre vários temas tradicionalmente polêmicos, agora postos em voga em consequência de um série de eventos que vieram à tona em setembro de 2017, começando basicamente por uma revolta popular contra a exposição de arte QueerMuseu no salão Santader Cultural da cidade de Porto Alegre, logo após um vídeo amador denunciar pela internet a presença de crianças em meio ao público dessa exposição, que teria conteúdo inadequado para o visitante infantil, a exemplo de quadros com cenas de sexo explícito, com orgias, inclusive com animais (zoofilia), além de cenas supostamente sugestivas à pedofiliaEssa mesma exposição também conteria “obras de arte” de conteúdo criminoso, conforme prescreve o artigo 208 do Código Penal, que criminaliza o ato de vilipêndio a objetos de culto religioso. No caso da amostra QueerMuseu, questiona-se, por exemplo, um quadro com inscrições “vagina” e “língua” em hóstias (usada no Catolicismo para o culto da eucaristia).

Exposição QueerMuseu no Santander Cultural de Porto Alegre-RS.

Logo em seguida ao caso QueerMuseu, foi alvo de revolta popular a performance denominada La Bête (A Besta, traduzido do francês) exibida no MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo, cuja “expressão artística” é simplesmente a exibição de um ator totalmente nu e passivo no meio de um salão, para livre apreciação e interação. O caso ganhou dramaticidade quando foi exibida nas redes sociais, em tom de protesto, imagens de uma garotinha “interagindo” (tocando) o corpo nu do artista, o que, na interpretação de juristas, ferem o Código Penal no artigo 234 que trata dos crimes de ultraje público ao pudor, bem como — especialmente falando da presença de menores a essa amostra —, transgride os dispositivos dos artigos 240 e 241, do ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente.

Criança assiste à mostra La Bête
Em paralelo a essa discussão no âmbito criminal, também subiu ao palco a controvérsia sobre a utilização de recursos públicos — notadamente a Lei Rouanet — para o financiamento desse tipo de arte. Financiamento de consideráveis valores, diga-se de passagem, com o agravante de conjecturada promoção ideológico e partidária. Tais “patrocínios com erário público” são bastante questionáveis, sobretudo se levarmos em conta a crise dos serviços públicos fundamentais nos setores de educação e saúde.

Por outro lado, perplexos com essa reação pública, artistas, críticos de arte e personalidades de diversas categorias manifestaram veemente repúdio contra o que eles titulam de “censura”, “ignorância”, “intolerância” e “perseguição à arte”, exigindo os valores da “liberdade de expressão”, inerente à expressão artística que, segundo alegam, é amparado pelo artigo 5°, inciso IX, da Constituição brasileiraOs “defensores da arte livre” reagiram com veemência contra a decisão do Banco Santander de suspender a exposição no Rio Grande do Sul e contra os protestos populares. Diversas celebridades se pronunciaram nas mídias em defesa da “descriminalização da arte”. Um grupo desses defensores almeja até transformar esse apelo em projeto de lei que garanta imunidade aos artistas para se manifestarem, através de suas obras, sem serem molestados pelos que chamam de “moralistas conservadores”.

Como se observa, toda a polêmica envolve diversas questões graves, complexas, cujos pontos de vistas — muitas vezes, saturados de opiniões passionais, habitualmente arrastam seus partidários a atitudes radicais. Ponderando que tais fatos estão presentes no cotidiano da vida social, os espíritas somos convidados a uma reflexão sobre tal discussão, o que nos remete a uma análise obsequiosa sobre os múltiplos universos da arte, liberdade, censura, nudismo, pedofilia, tolerância religiosa, etc.

É o que propomos bancar neste ensaio, que, manifestamente, não responde categoricamente pelo Espiritismo, porém pelo nosso ponto de vista — embora almejamos declaradamente nos amparar nos preceitos e apelos dessa Doutrina de Luz que professamos com satisfação.


Choque de opiniões

No meio dos protestos populares contra a polêmica aqui em debate se encontram amiúde os mais diversos “achismos” sobre a questão, mormente daqueles que se escandalizam com a sugestão de uma postagem nas redes sociais da internet e saem compartilhando sua ira sem maiores conhecimentos sobre os fatos.

Também há as vociferações dogmáticas de religiosos imponderados que, crendo agirem sob procuração divina, disparam seus anátemas às cegas. Num debate franco, pessoas despreparadas assim perdem a causa com facilidade, pois faltam às suas opiniões argumentos sólidos para justificar suas posições, dando ensejo aos seus oponentes na discussão. E os mais maliciosos sabem muito bem se aproveitar dessas brechas contra aqueles outros, que serão naturalmente taxados de ignorantes, por não compreenderem arte e nem conseguirem balizar suas ideias e crenças.

Do outro lado dessa polêmica, os defensores da liberação geral — notadamente artistas, críticos e profissionais de arte — valem-se de conceitos sobre arte e tudo o mais de que se utilizam para a expressão artística (por exemplo, nudismo, sexo, elementos religiosos, etc.) em suas obras mediante os valores de sua compreensão.

Ou seja, essas obras de artes refletem o entendimento de seus autores e são interpretadas pelos seus admiradores de acordo com o grau de entendimento deles sobre os valores utilizados na obra. De alguma forma, eles são ativistas de suas crenças e de seus conceitos sobre os temas utilizados em suas obras. Portanto, antes de se discutir sobre essa ou aquela obra de arte, é preciso que se considere sobre os conceitos ali empregados.

O primeiro ponto crítico é justamente o conceito de arte que esses artistas têm, bem como o escopo de uma obra de arte. Em geral se propõe que o artista não deva ter limites e, inclusive, que a arte é historicamente uma via comum de vanguarda e transgressão, feita para escandalizar e romper barreiras (conservadorismo) e fazer avançar a modernidade. Nesse contexto, o artista é uma espécie de desbravador. Essa tese costuma ser empregada como válvula de escape para justificar possíveis extrapolações legais.

A questão que aqui se apresenta é se essa modernidade seja de fato progresso. Será que tudo que é moderno é evoluído? E será que em nome desses valores artísticos se pode tudo?

Dr. Cesar Matsui
Bem, não vamos nos ocupar aqui quanto às implicações jurídicas envolvendo essa polêmica toda, embora julgamos válido convidar a todos para apreciar as ponderações de um especialista, através do artigo Liberdade de expressão como método para a prática de crimes, assinado pelo advogado Dr. Cesar Matsui.

Contudo, além disso, convém considerarmos que, no mundo ainda moralmente deficitário como a Terra, dentro do curso evolutivo, estamos suscetíveis às fraquezas e apelos materiais, pelo que podemos compreender a evidência de artistas corrompidos pelos mais ardilosos interesses e ofuscados pelas improfícuas ideologias, cabendo-nos questionar: onde está genuinamente o espírito da “arte pura”?

Contextualizemos a temática. Será que a nudez da performance La Bête é reprodução legítima do chamado “nu artístico”? A sua proposta consegue representar o nu natural a exemplo de algumas culturas indígenas? Admitamos que sim, que o artista que elaborou “essa arte” e o ator que a encenou concebam assim, porque eles se inspiram na “inocência” da nudez natural — e que até haja desinteresse no prêmio em dinheiro envolvido. Mas, pensemos no efeito prático de uma “obra de arte” desse jaez: que tipo de sentimentos ela despertará no público? O resultado colimado será semelhante à “pureza” de sentimento que o artista expressou?

Ah, não! — Falarão os defensores da arte livre — Isso não é da conta do artista e a arte em si não tem obrigação de uma utilidade prática e tampouco responsabilidade pelos desdobramentos que venham a se dá a partir de sua produção!

Será que é assim mesmo?

Poderão, ainda, dizer que, no caso de artista expressar cenas deprimentes de zoofilia e demais orgias em suas obras, além do mais, aberrações que conspurcam o sentimento e a razão, nada mais faz do que delinear a vida real; Que diariamente crianças estão expostas ao nudismo em diferentes situações, desde às das obras clássicas (como a escultura de David de Michelangelo), até o dos sites pornográficos, facilmente acessíveis na internet debaixo da saia das mães e das barbas dos pais.

David, obra de Michelangelo
Essa justificativa parte do mesmo princípio adotado pelos arautos da descriminalização das drogas: se, afinal, já é uso corrente clandestinamente, por que não as legalizar logo? Essa analogia, aliás, não foi trazida aqui fortuitamente, pois é fato que a história recente tem associado o ativismo artístico com os vieses da anarquia e do brado quimérico da sonhada “liberdade absoluta”, em cuja esteira as drogas e entorpecentes simbolizam a conquista.

O artista consagrado pela fama, se assenta na vanguarda destes pleitos com seus discursos tendenciosos, sugerindo a construção de uma sociedade sem lei, sem ordem institucional, sem rumo. O princípio desse raciocínio anárquico é simples: nada no mundo é perfeito e tudo é desordem, logo, não se deve admitir qualquer ordem nem tampouco levar a sério qualquer princípio moral, já que, se a sociedade moralista é “podre e hipócrita”, destarte, os conceitos morais são inválidos.

Todavia, para não cairmos em divagação nessa nossa análise, tendo em vista a complexidade dos desdobramentos, precisamos mirar o que consideramos o cerne da questão tratada. Em suma, o ponto capital para nossa reflexão aqui proposta, acerca da questão levantada, é ajuizarmos sobre o que verdadeiramente é a arte.


Proposição espírita para o assunto

Sob o ponto de vista de todas as ideologias, crenças e ceticismos, qualquer reflexão que se faça a respeito dos temas aqui tratados estará sujeita ao nível de abrangência das expectativas, que fundamentalmente se limitam às impressões sensoriais, relativamente influenciadas pelo fisiologismo, ou pelos imperativos dos atrativos materiais.

Nossa reflexão não se baseará nos valores terrenos utilitaristas. O espírita, tem à sua disposição um compêndio de conceitos filosóficos muito consistentes para analisar as questões sociais em seus múltiplos apelos. Desta feita, ao apreciar o valor das coisas, levará em conta a transitoriedade desses valores imediatos, porém, sem subestimá-los. Entretanto, necessariamente, priorizará os valores espirituais que são imperecíveis. Sempre apoiados na certeza da a multiplicidade das vidas terrenas pela lei de reencarnação.

Em síntese, um materialista ou alguém que ignore os preceitos espíritas analisarão a polêmica em questão, sob o viés dos estreitos julgamentos conforme convenções terrenas, sempre sob a perspectiva da unicidade da vida terrena, e, no quanto aos espiritualistas tradicionais, avaliarão o tema controverso aqui, consoante a crença do juízo inapelável após a morte. Já o espírita considera os valores espirituais e a continuidade da experiência corpórea através das reencarnações.


Conceituação de Arte terrena

As convenções sociais nem sempre (ou quase nunca) se alinham com os valores espirituais. O que é legal nos códigos dos homens pode não ser adequado nas esferas extrafísicas e vice-versa. Concentremo-nos e arrazoemos, pois, sobre o conceito de Arte , embora este seja um terreno um tanto abstrato, subjetivo, sensível ao tempo e às influências culturais, controverso até mesmo entre os “especialistas”.

Geralmente define-se a arte terrena como uma via de expressão formal de sentimentos e ideias do artesão através de uma linguagem artística, que nem sempre tem utilidade prática, visando suscitar a admiração da platéia. Detalhemos aqui a “expressão formal” como obra de arte que precisa ter uma forma acabada, definida e perceptível (por exemplo: uma escultura, uma composição musical, uma peça teatral, dentre outros); esse objeto é então uma representação, um símbolo ou reflexo palpável do imaginário do artista sobre o que ele nutre dos próprios sentimentos, acreditando e ou desejando comunicar seus princípios , crenças e valores morais a exemplo das apologias ideológicas, dos protestos aos sistemas, das proposições de novos conceitos, informar alguma coisa ou até mesmo doutrinar, etc.); nos horizontes da “linguagem artística” incluímos os conceitos de estética (da beleza, não do objeto em si, pois que pode ser um objeto sem beleza mas de como o artista o compôs, e da aplicação das técnicas e habilidades do artista para a confecção da obra; uma obra pode ter diretamente uma utilidade prática, como uma roupa, uma ponte, uma ferramenta, ou ser apenas uma peça de apreciação (um quadro, uma poesia, etc.) e diversão (um filme, uma charge, etc.); o artista se expressa por suas obras para despertar no observador admiração, no sentido de espanto, emoção frente a algo que não se espera, dado que um dos critérios para avaliar uma obra de arte é sua originalidade. A partir desse “susto inicial”, o espectador então é livre para interpretar a representação artística (em sintonia ou não com o que o artista almejou expressar) e deixar aflorar sentimentos e emoções próprias acerca de temas propostos na obra (satisfação, medo, indiferença etc.).


Utilidade e utilização das artes

Há quem proponha haver uma espécie de “arte pura”, pela qual o artista se expressa, para valorizar suas habilidades (capacidades, técnicas) e demonstrar possibilidades artísticas, bem como para promover a beleza das coisas (novamente, não dos objetos em si, mas da forma como eles foram compostos pelo artista), sem qualquer intenção ideológica fora do próprio universo artístico. Nesse sentido, o “verdadeiro artista” produz sua obra primordialmente por amor à Arte — ainda que ela seja patrocinada.

Entretanto, e historicamente está comprovado, que as artes têm sido utilizadas como instrumentos para os mais variados propósitos além dos valores artísticos. Valem-se das artes para fins de doutrinação e propagação das religiões, para apologia de ideologias políticas, de causas sociais, para fins comerciais, etc. E a própria subjetividade das obras de arte dá certa imunidade a essas pretensões, pois, por exemplo, um quadro de um ser humano desnudo pode suscitar diversas interpretações, pelo que, quando lhe convier, o autor poderá dizer que se trata sim de uma propaganda ao erotismo, ou pode alegar que se trata de apologia ao naturalismo, ou ainda dizer que não existe em sua obra qualquer propósito e se trata apenas de uma “arte pura”. Tudo isso é possível pelo artifício formal de nem sempre a “mensagem real” que motiva o artista estar explícita na sua composição.

Essa ambiguidade típica do universo artístico nos remete a um quadro exposto no QueerMuseu onde está retratada uma cena de sexo explícito envolvendo três indivíduos. Que mensagem e que valores artísticos estão ali embutidos que mereçam patrocínio do dinheiro dos contribuintes brasileiros, que quase sempre desconhece o emprego desse dinheiro em tal “obra de arte”?

E não percamos de vista que artistas, críticos de arte e celebridades em geral defendem imunidade total aos artistas, em nome da Arte!

Mas será que no bojo de tudo quanto se pode considerar como sendo “arte”, teremos de admitir irrestritamente toda manifestação supostamente cultural? Será que poderíamos considerar obras de arte os bailes funks saturados de erotismos e palavrões, os filmes repletos de violência, as pichações criminosas nos muros alheios e tudo o que fira valores de fé como os símbolos de algumas religiões?

A utilização das artes como meios de informação, propagação e cultura não apenas nos parece legítima como também parece necessária para a promoção de novas aprendizagens e novos saberes. E fazemos votos que, por exemplo, o Movimento Espírita saiba fazer bom uso desse recurso, porquanto o Espiritismo é uma fonte fecunda de sublime inspiração para os artistas sensíveis às grandezas espirituais.

Mas a isenção de responsabilidades dos ativistas é inadmissível...


A Arte ante os valores espirituais

Quem somos nós para arrazoarmos categoricamente, em nome dos bons Espíritos, os conceitos de Arte ante os valores e recomendações espirituais? Alguém sensato não ousaria. Entretanto, podemos propor reflexões sob as pressuposições concernentes ao tema, apoiados nas mensagens advindas dos sábios habitantes do além-túmulo. Além disso, podemos também recorrer aos notáveis pensadores espíritas (encarnados).

Ouçamos Léon Denis:
“A beleza é um dos atributos divinos. Deus pôs nos seres e nas coisas esse encanto misterioso que nos atrai, nos seduz, nos cativa e enche a alma de admiração, às vezes de entusiasmo. A arte é a busca, o estudo, a manifestação dessa beleza eterna da qual percebemos, aqui na Terra, apenas um reflexo. Para contemplá-la em todo o seu esplendor, em todo o seu poder, é preciso subir de grau em grau em direção à fonte de onde ela emana, e isso é uma tarefa difícil para a maioria entre nós. Pelo menos, podemos conhecê-la pelo espetáculo que o Universo oferece aos nossos sentidos e também pelas obras que ela inspira aos homens de gênio”

Léon Denis (O Espiritismo na Arte, Parte 1)
Léon Denis
Naturalmente não concebemos os valores artísticos sem um propósito objetivo, ainda que nos limites da dimensão de mera opinião; urge haver em cada obra de arte um elevado propósitos além, é claro, do movido escopo de “encantamento” da platéia; É necessário estar ínsito em cada peça artística um intuito de instrução e animação dos admiradores às tais virtudes. Uma obra qualquer nos planos de suas concretudes e ou abstrações precisa deslumbrar e seduzir positivamente, até porque as chamadas “obras de arte” que proponham finalidades opostas às virtudes do bem culminam por despertar efeitos psicoemocionais indesejáveis, portanto tais obras não podem representar uma arte elevada.

Como se não bastassem os escusos propósitos “artísticos” aqui apontados, ocorrem também impregnações de fluidos deletérios que envolvem as tais obras expostas, quando advindas de autores descompromissados com o bem, e obviamente tais obras podem influenciar fluidicamente os seus deslumbrados apreciadores. Não é concebível imaginar, por exemplo, a sublime composição musical Ária na Corda Sol de Bach, executada com amor, desprovida de uma carga fluídico e magnética elevada; ora, como resultado, um concerto com um repertório dessa qualidade, interpretado por músicos comprometidos com a causa elevada, é um verdadeiro banho magnético que favorece àqueles que tiverem maior sensibilidade musical.


Se nada deva se dar sem um propósito, os autores não podem escapar das responsabilidades pelas baixezas que queiram imprimir em seus trabalhos e, de outra forma, também não ficam sem recompensa os esforços dos artistas verdadeiramente inspirados pelas coisas superiores. Nada passa sem resposta: nenhuma baixeza passa incólume, assim como nenhuma vibração positiva fica órfã de uma resposta das forças espirituais.

Outra questão que não devemos perder de vista é que a direção que caminha para a elevação e aperfeiçoamento das coisas aponta para a sublimação das expressões e caminha em direção às artes. Quer dizer, quanto mais elevados os Espíritos, mais artísticas serão as suas manifestações. Daí, podemos visualizar que nos mundos superiores a linguagem seja sempre poética, ornada de ritmo, rima e melodia. Cremos que os Espíritos superiores não falam, simplesmente, mas cantam, e encantam; que ao invés de tão somente andarem, eles desfilam e voejam; que os seus trajetos deixam rastros impregnados de cores brilhantes e fragrâncias agradáveis; que suas formas-pensamentos sejam como que pinturas vibrantes e quadros vivos, cenas ricas de coreografia.

Portanto, a arte é abundante nos mundos superiores e todos os seus habitantes são artisticamente refinados. Por conseguinte, a arte humana não passa de um arremedo de cópia imperfeita do original do além, razão pelo qual os artistas terrenos nada mais são do que singelos recrutas da Arte Maior.


Allan Kardec, codificador do Espiritismo


A Doutrina Espírita e as artes

A Doutrina Espírita é a escola da evolução, que nos prepara teoricamente para penetrarmos nas leis da excelsa natureza e nos enseja ensaios da prática elevadas aqui mesmo na Terra. Quem compreende a essência doutrinária antecipa-se, vivenciando interiormente o estágio inicial da felicidade póstuma, irradiando-a, tornando progressivamente sensível essa realidade altiva. Com efeito, num silogismo válido, o Espiritismo há que se ocupar das artes, que, como vimos, é inerente às coisas da espiritualidade maior, que por sua vez é o assunto do objeto espírita.

A propósito, faz-nos bem recordar o Espírito Rossini. Diante de Allan Kardec, na Sociedade parisiense de estudos espíritas, ele manifestou-se mediunicamente atendendo ao convite para dissertar sobre Música — a primeira das artes — segundo o entendimento espiritual. Ele que havia sido um dos grandes gênios da música erudita italiana, agora, recém-desencarnado, discorre sobre o papel espírita para a ressignificação da arte musical e, por extensão, de todos os campos artísticos na Terra, como elemento didático e revolucionário para a reforma moral da Humanidade:
"Ah, sim! O Espiritismo terá influência sobre a música! Como não poderia ser assim? Sua chegada transformará a arte, depurando-a. Sua origem é divina, sua força o levará a toda parte onde haja homens para amar, para elevar-se e para compreender. Ele se tornará o ideal e o objetivo dos artistas. Pintores, escultores, compositores, poetas irão buscar nele suas inspirações e ele lhas fornecerá, porque é rico, é inesgotável.”
Rossini (Obras Póstumas, Allan Kardec - 1ª Parte, “Música espírita”)
Giochino Rossini (1792-1868)

Para que essa transformação moral se opere na sociedade, se faz urgente que optemos pela melhor classificação das obras de arte e qualifiquemos nossas capacidades e sensibilidades artísticas. Por oportuno, vale indagar: a que tipo de arte estamos dando priorizando? Que espécie de músicas ouvimos? A que conteúdos cinematográficos temos assistido? Quem são os artistas que temos prestigiado? Quais temas têm inspirado nossas preferências artísticas?

Talhadas essas reflexões, e sem e querer proferir a palavra final sobre o temário aqui exposto, fazemos um convite à tolerância e espírito de caridade diante de todos, mesmo que discordando pontualmente de uns e de outros acerca de dilemas conceituais e ajuizamentos de valores morais. No final da contas, a é mesmo nas as incongruências artísticas ensejam experimentações e crescimento espiritual para todos nós. E estejamos convictos de que, ao cabo de tudo, prevalecerá a força maior, que é a que converge todas as criaturas para o Criador nas esteiras da evolução espiritual. E acima de tudo, não percamos o foco elementar: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Debate filosófico sobre Espiritismo: Luiz Felipe Pondé x Cosme Massi


A internet e, especialmente, as redes sociais, tem nos proporcionado um canal aberto de debate sobre os mais diversos assuntos — desde as mais irrelevantes, como as possíveis alternativas para o final de uma telenovela, até os mais profundos temas filosóficos. É verdade que essa democratização de opinião dá azo para todas as qualidades de comentários e que muitas das vezes as opiniões mais "curtidas" e compartilhadas são aquelas que "jogam para a plateia", de pessoas que desconhecem o mínimo do que falam mas que com gracejo, e às vezes malícia, conseguem sobressair-se diante de um público tão fascinado por ideologias e hipnotizado pelos apelos visuais da dinâmica própria das mídias online. Por isso, muitos "tecnocratas" da área da comunicação temem o fato de que, segundo eles, "a internet deu voz aos idiotas", enquanto que a "plebe rude" vai comemorar a oportunidade de "balançar o coreto" dos conservadores dominantes.

De nossa parte, sobre essa problemática, observamos com certa justeza a preocupação com as vozes deliberadamente motivadas por ideologias anárquicas e interesseiras (basta vez a questão do fake news, ou seja, notícias falsas), ao mesmo tempo em que consideramos positivo essa diversidade, para o ensaio e experimentação das capacidades individuais.

Mas então, dada essa oportunidade, tomamos nota de um embate filosófico interessante, aberto com um vídeo do filósofo Luiz Felipe Pondé com um vídeo intitulado "O espiritismo é uma filosofia respeitada pelo mainstream filosófico?", rebatido por Cosme Massi.

O pernambucano Luiz Felipe Pondé é doutor em filosofia pela USP, escritor, autor do best-seller Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, muito recorrido nas mídias e, entre outras coisas, é atualmente professor de Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Veja o vídeo de Luiz Felipe Pondé questionando se a Filosofia Espírita é consistente:


Cosme Massi é pedagogo, escritor, palestrante e conceituado ativista espírita, explicitamente devotado às obras básicas de Allan Kardec, idealizador do canal Kardequepedia.

Resposta de Cosme Massi:



Entendemos que esse embate filosófico é importante — para todos — porque, em primeiro lugar, expõe livremente ideias de pessoas notáveis, conscientes do valor da questão (ainda que Pondé demonstre desconhecimento profundo sobre a Doutrina Espírita, ele é capacitado intelectualmente para compreender o peso de suas opiniões) e ambos proporcionam ao seu respectivo público uma via de reflexão a respeito do pensamento do outro. Ou seja, os seguidores de Pondé (pelo jeito, majoritariamente ateu e materialista) têm, por indução do respeitado filósofo, uma chance a mais de refletir sobre a Filosofia Espírita, e, por outro lado, os espíritas têm o ensejo de conhecer visões antagônicas sobre questões de nosso interesse. O saldo disso tudo, para aqueles que estiverem honestamente atentos ao confronto de ideias — o que é próprio da Filosofia —, é um salutar esforço evolutivo em que todos têm a ganhar, desde que respeitem os princípios da lógica e da razão.

Ora, se acreditamos que os grandes problemas da não aceitação do Espiritismo no establishment filosófico e acadêmico sejam exatamente a ignorância dos princípios espíritas e o preconceito dos partícipes dessa elite contra a nossa Doutrina Espírita, então, eis aí mais uma oportunidade aberta para que os atuais antagonistas conheceremo melhor a obra kardequiana — como fundamento imprescindível para eles sustentarem suas ideias opostas a Kardec — e, conhecendo-a, repensarem seus conceitos e enfim penetrarem nas propostas espíritas para os grandes questionamentos metafísicos que atormentam os filósofos há milênios.

Sinceramente, não somos ingênuos o bastante para propor uma "conversão" de Pondé; ele demonstra ter uma posição bem definida sobre fé e religião, é uma espécie de guru entre os partidários dessa ordem de pensamento. Não lhe seria fácil saltar dessa plataforma há muito já arquitetada em sua carreira pública para uma outra que, principalmente, lhe imporia compromissos tão novos e desafiadores para quem construiu toda uma reconhecida carreira sustentando ideias tão opostas. Todavia, se o debate prosseguir, respeitados os princípios filosóficos, todos nós só temos a ganhar, inclusive os espíritas, pois, diante dos antagonismos, poderão revigorar suas concepções mediante mais estudos e exercícios de ideias diversas.

Entendemos que Cosme Massi respondeu bem às arguições de Pondé. Evidentemente que muitos outros detalhes poderiam ter sido acrescidos à sua fala, dada a complexidade do tema e as falhas racionais abertas pelos apontamentos de Pondé, mas, de forma geral, a resposta de Massi está a contento. Além do mais, porque o debate pode continuar — e esperamos que assim seja — e não apenas por esses dois protagonistas, mas por todos que desejem graduar suas concepções.

Cosme Massi deixou sua contribuição ao debate. Com a palavra, Pondé...

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Programa Evangelho no Lar Online em horário de verão


Nesta quinta-feira, 19 de outubro, teremos, com a graça de Deus, mais uma edição do nosso Programa Evangelho no Lar Online, com transmissão ao vivo pelo Canal Luz Espírita no YouTube, também acessível pela página inicial do Portal Luz Espírita.

Mas ATENÇÃO para o horário de verão. A transmissão começa às 20h, hora oficial de Brasília.

Informações complementares na página oficial do programa.

Participe conosco e divulgue o programa!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

1 milhão de acessos ao blog da Luz Espírita


O nosso blog Espiritismo em Movimento, editado pela Equipe Luz Espírita, acaba de alcançar a marca de 1 milhão de acessos, pela contagem automática do sistema de estatísticas do servidor Blogger, nosso hospedeiro.

1 milhão de acessos é uma marca e tanto, dada uma imensidão infinita de coisas que a internet oferece — de bom e de ruim. E se nós atingimos essa audiência toda, devemos aos nossos confrades e amigos que acompanham nosso trabalho.

Detalhe do contador automático de acessos

O blog Espiritismo em Movimento foi lançado em 28 de outubro de 2009, portanto, este mês estamos completando o 8° aniversário de seu lançamento. Clique aqui para ver nossa primeira postagem.

Através desse blog, temos posto em prática nosso propósito de levar ao nosso público notícias e novidades em geral do Movimento Espírita, além de artigos e ensaios diversos acerca de fatos e temas do nosso cotidiano de acordo com interpretações espíritas.

Interessante então recordarmos as postagens de maior audiência e repercussão que, conforme o próprio controle automático do Google, tem no topo desse ranking o post "Revelações de Chico Xavier sobre Transição Planetária"de 1 de junho de 2011, que nos remete aos tempos de expectativa no entorno das especulações sobre a lenda do fim do ano supostamente previsto pelo calendário maia para 25 de dezembro de 2012.

A segunda postagem de maior repercussão foi a matéria especial "A tragédia da Chapecoense e as mortes coletivas", de 29 de novembro de 2016, a respeito de uma reflexão envolvendo o comovente acidente aéreo que vitimou quase todo o time da Chapecoense (Associação Chapecoense de Futebol) e a teoria dos flagelos coletivos, comumente especulados como planejamentos espirituais por expiação e provas dos envolvidos.


Logo a seguir temos a divulgação da extraordinária exposição da Dra. Anete Guimarães sobre "Neuroplasticidade autodirigida", que publicamos em 3 de janeiro de 2012.


Recentemente uma postagem nossa tem obtido grande audiência: "Sala de Leitura: lançamento de "MUITA LUZ (BEAUCOUP DE LUMIÈRE)" de Berthe Fropo", que postamos no dia 5 deste mês de outubro, aliás, fazendo jus à importância da obra lançada, que é de fato uma obra histórica para o Movimento Espírita.


E seria muito interessante que nossos espectadores se inscrevessem para seguir nosso Blog e assim receber em  primeira mão — cada nova postagem que nosso Equipe publicar. Para tanto, basta estar logado em uma conta do Google e clicar no botão Seguir na coluna à direita da tela (veja imagem a seguir).


Se você estiver acessando pelo seu smartphone e essa coluna não aparecer, vá até o final da página e clique na opção "Visualizar versão para Web" (ver imagem adiante) para exibir a página completa e, então, o box com a lista de seguidores o botão Seguir.

Mais uma vez agradecemos a sua confiança em nosso trabalho, a audiência e, especialmente, a generosidade daqueles que também compartilham nossas postagens, contribuindo assim para a divulgação da nossa amada Doutrina Espírita.

E vamos ao segundo milhão de acessos!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Videopalestra espírita com Divaldo Franco sobre "Imortalidade e a vida do outro lado"


Compartilhamos com todos o vídeo com o seminário "Imortalidade e a vida do outro lado" proferido pelo célebre médium Divaldo Pereira Franco, no encerramento da 64ª Semana Espírita de Vitória da Conquista, Bahia, gravado no segundo domingo do mês passado (10 de setembro).

Nessa exposição, Divaldo Franco conta diversas experiências de sua longa trajetória como divulgador espírita frente a questões da sua vida pessoal que nos ensejam reflexões profundas sobre graves problemas comuns a toda a Humanidade à luz dos ensinamentos do Espiritismo, inclusive, comparando essas problemáticas com comportamentos e práticas do movimento espírita atual, chamando a atenção, por exemplo, da apelação que se tem feito, com muita frequência, no entorno das tais "sessões de curas", em menção direta a promessas de recondicionamento físico com suposta intervenção de Espíritos superiores, em detrimento da "verdadeira cura", que é recondicionamento consciencial do indivíduo em face de seus compromissos espirituais. Também critica o assistencialismo social que muitas casas espíritas promovem sem a preocupação do "pão espiritual", a libertação do Espírito.

Sem dúvida, um importante alerta para que se repense como nós espíritas temos tratado a Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec.

Eis o vídeo com o seminário:


E não deixe de compartilhar!

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Calendário Histórico Espírita: Auto de Fé de Barcelona (9 de outubro de 1861)


Há 156 anos, portanto, em 9 de outubro de 1861, deu-se um dos episódios mais marcantes na História do Espiritismo: o Auto de Fé de Barcelona, quando, na tentativa de barrar o avanço da Doutrina Espírita na Espanha, cerca de três centenas de livros doutrinários foram queimados em praça pública, em cumprimento a uma sentença proferida pelo Tribunal de Inquisição da Igreja Católica, então representada pelo bispo de Barcelona, Dom Antonio Palau Termens.

Representação de um Auto de Fé do Tribunal de Inquisição da Igreja Católica, a exemplo daquele ocorrido em Barcelona

No entanto, o resultado prático dessa repressão foi o repúdio público a esse atentado e, por conseguinte, um maior interesse dos espanhóis em conhecer o teor das obras censuradas, fazendo com que o Espiritismo se propagasse ainda mais fortemente em Barcelona e demais cidades da península ibérica.

Interessante que o referido bispo, uma vez desencarnado, vai comparecer à presença de Allan Kardec, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, para protagonizar uma das mais interessantes comunicações já efetivadas naquela entidade.

Dom Antonio Palau Termens, bispo do Auto de Fé de Barcelona de 9 de outubro de 1861
Confira mais sobre esse histórico episódio na Enciclopédia Espírita Online.

Para mais datas importantes para a História do Espiritismo, consulte a página do Calendário Histórico Espírita.


domingo, 8 de outubro de 2017

Lançamento: Lamennais na Enciclopédia Espírita Online


Mais uma biografia importante para o estudo espírita entra como verbete para a nossa Enciclopédia Espírita Online: Lamennais (pronuncia-se "lamené").

Veja a síntese do novo verbete:
Hughes Féiicité Robert de Lamennais (Saint-Malo, França, 19 de junho de 1782 - Paris, França, 27 de fevereiro de 1854) foi um padre, filósofo, escritor e político francês, conhecido no movimento espírita pela sua contribuição, em Espírito, nas obras básicas da codificação do Espiritismo por Allan Kardec. Foi uma figura influente e controversa na história da Igreja francesa, pois, enquanto de um lado defendia os valores do Catolicismo e a autoridade papal, por outro lado propunha ideias liberais tradicionalmente rejeitadas pela Igreja Católica.
Nesta biografia, traços marcantes da vida e a obra deste renomado pensador francês que, enquanto encarnado, tanto influenciou gerações de filósofos que se debruçaram sobre questões religiosas e políticas, e que, depois como Espírito, apresenta-se como colaborador da Codificação Espírita.

Lamennais

E só para exemplificar o caráter moral de Lamennais, vejamos a mensagem mediúnica que ele assinou, respondendo ao seguinte questionamento, ainda muito válido para nossos dias: Um homem acha-se em perigo de morte e, para salvá-lo, outro tem que expor a vida. Sabe-se, porém, que aquele é um malfeitor e que, se escapar, poderá cometer novos crimes. Apesar disso, o segundo deve se arriscar para salvá-lo?
Questão muito grave é esta e que naturalmente se pode apresentar à consciência. Responderei, na conformidade do meu adiantamento moral, pois o tema de que se trata é de saber se devemos expor a vida, mesmo por um malfeitor. O desprendimento é cego; socorre-se um inimigo; portanto, em resumo, deve-se socorrer o inimigo da sociedade, a um malfeitor. Julgam que será somente à morte que, em tal caso, se corre a arrancar o desgraçado? É, talvez, a toda sua vida passada. Com efeito, imaginem que, nos rápidos instantes que lhe levam os derradeiros alentos de vida, o homem perdido volte ao seu passado, ou que antes, este se ergue diante dele. Talvez a morte lhe chega cedo demais; a reencarnação poderá vir a ser terrível para ele. Lancem-se, então, ó homens; lancem-se todos a quem a ciência espírita esclareceu; lancem-se, arranquem-no da sua condenação e, talvez, esse homem, que teria morrido a blasfemar, se atirará nos seus braços. Todavia, vocês não têm que indagar se o fará ou não; socorram a ele, pois, salvando-o, obedecem a essa voz do coração que diz “Pode salvá-lo, salve-o!"
Então, não deixe de ver! Acesse agora mesmo o verbete Lamennais na Enciclopédia Espírita Online.

sábado, 7 de outubro de 2017

Programa Evangelho no Lar Online


Devido problemas técnicos o programa Evangelho no Lar Online de quinta-feira 5 deste outubro não pôde ser transmitido ao vivo, mas ele foi gravado e já está disponível no nosso canal do YouTube e pode ser assistido pela janela a seguir.


Próxima quinta-feira, com a graça de Deus, o casal Janete e Junior voltam a fazer normalmente a transmissão do programa.

Mais informações na página Programa Evangelho no Lar Online.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Sala de Leitura: lançamento de "MUITA LUZ (BEAUCOUP DE LUMIÈRE)" de Berthe Fropo


Caros confrades, o mais novo livro publicado em nossa Sala de Leitura é um marco para as atividades da Equipe Luz Espírita, pois, realmente, esta não é uma obra comum, inclusive, é uma raridade, de uma importância histórica inestimável, cujas revelações demandam uma reflexão profunda sobre as origens do movimento espírita, lá na França, do final do século XIX e começo do século XX, e suas consequências para o movimento espírita atual.

O livro de que temos a satisfação de anunciar é Muita Luz, tradução do original em francês Beaucoup de Lumière, que, pelo seu abreviado conteúdo (a publicação original tem apenas 76 páginas), cabe ser chamado de opúsculo. Mas, em se tratando de importância, este pequeno livro torna-se gigante, como ficará evidente a seguir.

Beaucoup de Lumière de Madame Berthe Fropo


Madame Berthe Fropo e sua obra histórica

Para entender o contexto da obra, convém nos voltarmos para a sua autora. Berthe Fropo e seu esposo, Augustin Fropo, eram espíritas de carteirinha, membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, vizinhos e amigos íntimos do casal Kardec. Não apenas isso. Especialmente depois da desencarnação de Allan Kardec, Berthe Fropo era muito ligada a Amélie Boudet, a viúva Kardec, sendo Fropo, inclusive, quem vai socorrê-la após acidente fatal que ocasionou o falecimento de Madame Kardec.

Pois bem, Beaucoup de Lumière é fruto do zelo de Fropo pela Doutrina Espírita, e é por esta obra que hoje podemos nos inteirar de detalhes históricos muito relevantes para compreendermos o que se passou com o movimento espírita logo após a desencarnação do codificador do Espiritismo. Fropo então vai denunciar os desvios de conduta daqueles que se encarregaram de conduzir a Sociedade Espírita e demais atividades institucionais iniciadas por Kardec, por exemplo, a edição da Revista Espírita. Esses desvios, segundo Fropo, eram de ordem doutrinária e moral.


Os desvios do movimento espírita

Os desvios doutrinários apontados por Fropo dizem respeito à mistura de conceitos espíritas com ideologias novas que se apresentavam até como uma elaboração melhorada do Espiritismo, especialmente falando do Roustainguismo — a pretensa "revelação da revelação" — e da Teosofia da mística Madame Blavatsky — para quem a Filosofia Espírita não passava de uma seita atrasada.

Depois disso, Fropo vai tratar dos desvios morais dos dirigentes que então comandavam — e desfiguravam — a continuação das obras de Kardec, pelo que ela considerou como uma "questão financeira". No centro desse núcleo usurpador, a autora coloca Pierre-Gaëtan Leymarie, aquele que tanto havia sido ajudado pelo casal Kardec — financeiramente, inclusive.

Pierre-Gaëtan Leymarie

Fropo discorre, em tom grave de desabafo e quase desespero, sobre como Leymarie destratava Madame Kardec e a isolou das decisões do Comitê que cuidava dos projetos espíritas. Apossando-se de procuração dos membros dessa comissão, Leymarie agiu maquiavelicamente para apossar-se do comando espírita e praticar os mais absurdos desmandos — e, de acordo com Madame Berhte Fropo, por interesses materiais e iludido com as propostas dos roustainguistas e teósofos.


Repensando a historiografia espírita

Beaucoup de Lumière, como se vê, é um documento histórico valiosíssimo que nos ajuda a compreender por que o Espiritismo ruiu na sua terra natal de maneira tão rápida.

Essas revelações nos obrigam a repensar o legado de Leymarie, até então descrito como "um grande colaborador do Espiritismo". Na mesma proporção, põe em cena uma personagem que nos era desconhecida: Berthe Fropo, a quem devemos render homenagens.


O legado de Fropo

Ao bancar a publicação independente de seu opúsculo iluminativo, desafiando todos os preconceitos da sua época, Fropo não intentou apenas fazer uma denúncia, mas, como podemos ler na obra, principalmente objetivou alertar os "espíritas sinceros", conquanto lenientes demais com a situação, para o perigo que a Doutrina Espírita corria, sob os desmandos de Leymarie, e convocá-los para formar uma frente de resistência, em honra à codificação kardequiana — à qual ela demonstra sempre toda a consideração possível.

Ela também conta que, através de reuniões mediúnicas realizadas na casa da viúva do codificador, o Espírito Allan Kardec manifestou-se várias vezes, incitando seus confrades a tomar providências contra esse iminente mal que assolava a Doutrina Consoladora. Os desdobramentos seguintes são a fundação de uma nova entidade, a União Espírita Francesa, e seu órgão oficial de informação, o jornal O Espiritismo (Le Spiritisme). Fropo, inclusive, assume a vice-presidência da nova entidade; a presidência ficou a cargo do devotado Gabriel Delanne. Inicialmente, pensou-se em aclamar Amélie como a presidente desta União, mas ela recusou o convite, alegando as dificuldades naturais de sua idade, já que era octogenária.

É certo que Berthe Fropo não conseguiu "salvar" o movimento espírita francês que, como sabemos, praticamente desapareceu da França e demais países da Europa ainda no começo do século XX. Contudo, certamente a bravura daquela femme forte serviu para dar uma sobrevida ao movimento, sem o que, possivelmente, não teríamos conhecido a magistral obra de Léon Denis — à época, ainda um jovem que começava a despontar nas searas espiritistas. E quem conhece a contribuição de Denis para a Filosofia Espírita, sabe que prejuízo teria sido tal lacuna.


A tradução de Beaucoup de Lumière

O opúsculo de Berthe Fropo caiu no esquecimento do movimento espírita subsequente à sua geração e permaneceu na penumbra até pouco tempo, quando foi "garimpado" por pesquisadores espíritas que, através da internet, descobriram aquele que possivelmente é o único exemplar sobrevivente daquela publicação de 1884, que consta nos arquivos da Biblioteca Nacional da França (BnF) e cuja cópia digitalizada está acessível online através do site da Galica.

Foi a partir dessa cópia digital que se iniciou o projeto da tradução Muita Luz, que ora apresentamos, levada a efeito pelos colaboradores Ery Lopes e Rogério Miguez, com revisão de Jorge Hessen. Uma tradução nada fácil, diga-se de passagem, entre outras razões, porque a fotocópia sobrevivente e disponibilizada pela BnF não está totalmente legível, aliás, como contam os tradutores no prefácio desta edição.

Capa de Muita Luz (Beaucoup de Lumière)

Na disposição desta edição consta:
  • Prefácio: introdução da obra assinada pelos tradutores;
  • Muita Luz: o conteúdo da tradução, em português;
  • Beaucoup de Lumière: digitalização do texto original em francês;
  • Epílogo: arremate da publicação assinada pelos tradutores.
Os tradutores conservaram as notas de rodapé originais de Berthe Fropo e acrescentaram outras, contextualizando informações da tradução e da composição original.

Muita Luz (Beaucoup de Lumière) não está disponível em versão impressa, mas os editores a disponibilizam gratuitamente para download através da nossa Sala de Leitura e a partir daí, quem desejar poderá imprimi-lo livremente.


Os tradutores Ery Lopes e Rogério Miguez e o revisor Jorge Hessen


Documentos históricos complementares

Beaucoup de Lumière é uma espécie de dossiê que declaradamente levanta suspeitas sobre Leymarie e seus aliados dentro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, do movimento roustainguista e da doutrina teosófica. E dada a urgência e gravidade da situação, a autora não é nada eufêmica em seus relatos, procurando mesmo ser a mais objetiva e clara possível, na expectativa de que seu apelo quase escandaloso se transformasse em ações concretas dos "espíritas sinceros" contra aqueles a quem Fropo considerava usurpadores da nossa Bela Doutrina.

Esse tom quase agressivo de Fropo pode suscitar questionamentos dos leitores, tal como: será que essas acusações não seriam frutos de um grande engano, de um surto de histeria de uma revoltada qualquer?

Quanto a isso, os tradutores fazem questão de dizer que a obra de Fropo é uma versão dos fatos envolventes, inclusive contestada pelo principal acusado  Leymarie. Portanto, é preciso ponderarmos sobre a veracidade das denúncias. Em vista disso, pesquisadores correm atrás de documentos e outros indícios que ajudem a desvendar o caso. E aí, com efeito, muitos vestígios encontrados recentemente podem corroborar com as acusações postas em Beaucoup de Lumière, senão em tudo, pelo menos na essência da coisa.

Dos desvios doutrinários, por exemplo, as mais salientes provas são dadas pelo próprio Leymarie: enquanto editor da Revista Espírita, ele fez daquele veículo um catálogo das mais esdrúxulas ideias místicas e esotéricas. Outros registros também dão conta de que Leymarie apossou-se ilegalmente dos bens materiais do casal Kardec, que deveriam ser destinados integralmente para as obras doutrinárias em favor do Espiritismo. Tanto que, após a morte de Leymarie, esses bens foram herdados e usados para proveito próprio de seus parentes, principalmente falando de sua esposa e seu filho, Paul Leymarie. Aliás, um dos espólios de Kardec ainda hoje conservados pelos herdeiros de Leymarie encontra-se na Rua Saint-Jacques, N° 42, da capital francesa, prédio onde, no primeiro piso, consta a "Librarie Leymarie", uma livraria espiritualista (livros esotéricos e místicos) e, no segundo andar, salas para consultas de ocultismo.


A livraria esotérica e as salas de ocultismo dos Leymarie

Um dos primeiros divulgadores das revelações de Berthe Fropo foi o pesquisador espírita Adriano Calsone, autor de Madame Kardec e Em Nome de Kardec, (disponível aqui) livros que tratam diretamente das revelações de Beaucoup de Lumière. Dois livros minuciosos e bem amparados por fontes confiáveis que merecem uma leitura atenciosa.


Interessante acrescentar também o livro Anticristo: Senhor do Mundo, de Leopoldo Cirne, muito desconhecido no meio espírita atual, mas recentemente posto em evidência através de uma resenha assinada por Antonio Cesar Perri de Carvalho, conforme publicamos aqui.


Muita Luz

O resgate dessa gigantesca obra, longe de meramente querer incriminar personalidades, é importante  além de sublevar a figura honrosa de Berthe Fropo  para nos fazer repensar o movimento espírita atual, a fim de não deixarmos ocorrer em nossa geração o que houve com o Espiritismo daqueles tempos. E é mesmo de pensarmos seriamente se nossa filosofia está livre daquelas velhas ideias de ocultismo, misticismo, esoterismo e modismos em geral...

Por tudo isso e muito mais, convidamos a todos para conhecerem Muita Luz (Beaucoup de Lumière), de Berthe Fropo, tradução de Ery Lopes e Rogério Miguez, revisão de Jorge Hessen, agora livremente disponibilizados na Sala de Leitura do Portal Luz Espírita.

Clique aqui para baixar Muita Luz (Beaucoup de Lumière) nos formatos PDF e ePUB.