quarta-feira, 25 de abril de 2018

Exorcismo na Igreja, evolução no Espiritismo


Uma das revoluções da Revelação Espírita é o total desapego às fórmulas e às práticas ritualísticas para exercício da religiosidade, que, aliás, uma tendência já disposta em muitas denominações religiosas desde a Reforma Protestante. Na contramão dessa tendência moderna, o Vaticano anuncia a convocação de 250 sacerdotes para um curso de exorcismo (Fonte: G!). A propósito dessa deliberação católica, convidamos a todos para uma reflexão acerca de temas inerentes a exorcismos e outros cerimoniais à luz do Espiritismo.


A convocação papal

O Vaticano acaba de abrir as portas para seu curso anual de exorcismo em meio a uma demanda crescente de comunidades católicas ao redor do mundo. Cerca de 250 padres, vindos de 50 países, chegaram a Roma para, entre outras coisas, aprender a identificar uma "possessão demoníaca", ouvir testemunhos de colegas e conhecer os rituais para a "expulsão de demônios".

A prática é polêmica, em parte pela forma como é apresentado na cultura popular — particularmente, em filmes de terror. Mas também houve relatos de abusos cometidos em sessões de exorcismo em várias seitas religiosas diferentes.

O curso do Vaticano, com cerca de uma semana de duração, é denominado "Exorcismo e a Oração da Libertação" e começou a ser ministrado em 2005. Desde então, o número de alunos dobrou. O custo é de 300 euros (cerca de R$ 1,2 mil) e o currículo inclui abordagens da teologia, psicologia e antropologia.

Papa Francisco


Por que a demanda está aumentando?

Padres católicos de diversos países disseram à imprensa terem notado um aumento no número de fiéis relatando sinais de "possessão demoníaca". No ano passado, o Papa Francisco disse a clérigos que eles "não deveriam hesitar" em encaminhar casos para exorcistas ao notarem "distúrbios espirituais genuínos". Estima-se que meio milhão de pessoas busquem sessões de exorcismo a cada ano na Itália. Um relatório do centro de pesquisas cristão Theos afirmou, em 2017, que a prática está crescendo  em parte, pela expansão de igrejas pentecostais.

Algumas dioceses desenvolveram seus próprios cursos para atender à crescente demanda, como na Sicília (Itália), e na cidade americana de Chicago. O padre americano Gary Thomas, que pratica exorcismos há 12 anos, diz que à medida que a sociedade passou a confiar mais em ciências sociais, caiu o número de igrejas que treinam exorcistas. Para ele, o declínio do cristianismo também abriu espaço a práticas supersticiosas.

Já Benigno Palilla, um padre italiano, disse ao portal Vatican News que a popularização de tarô e feitiçaria teria renovado a demanda para exorcismos. No entanto, pouquíssimos casos realmente precisam do chamado exorcismo magno. Dos 180 casos que testemunhou, Thomas diz que apenas uma dezena precisou dessa modalidade, que necessita da aprovação de um bispo e envolve orações específicas.


Quando é que um exorcismo é autorizado?

Em 1999, a Igreja Católica fez a primeira grande atualização nas regras sobre exorcismo desde 1614, distinguindo a possessão demoníaca de doenças físicas e psicológicas. Como consequência, o padre Thomas trabalha com um grupo de médicos, psicólogos e psiquiatras  todos católicos praticantes  para investigar a causa do sofrimento de uma pessoa antes de diagnosticar a possessão demoníaca. Ele então tenta uma série de orações de esconjuro. Um exorcismo magno só ocorre como último recurso, diz o padre.



O que ocorre no exorcismo?

Em geral, o padre, pratica o ritual usando uma túnica branca de renda chamada sobrepeliz com uma estola roxa. A pessoa possuída pode ser atada, e água benta deve ser usada. O padre faz o sinal da cruz várias vezes em frente à pessoa ao longo do procedimento. O padre convoca santos, reza e lê trechos da Bíblia nos quais Jesus expulsa demônios de pessoas. Em nome de Jesus, ele pede ao demônio que se renda a Deus e vá embora, tantas vezes quanto necessário. Assim que o padre se convence de que o exorcismo funcionou, ele reza a Deus para que impeça o espírito maligno de importunar a pessoa afetada novamente, e que, em vez disso, a "bondade e paz do nosso Senhor Jesus Cristo" se apossem dela.


Quais são as críticas?

Há muitas críticas ao exorcismo e preocupações de que ele esteja sendo usado por sacerdotes religiosos para abusar de crianças e outras pessoas vulneráveis. Houve casos de mortes em rituais associados ao exorcismo. De maneira geral, há o risco de pessoas com doenças como epilepsia ou esquizofrenia serem erroneamente consideradas "possuídas" e, por isso, deixarem de receber tratamento médico adequado.

Em 2012, o governo britânico divulgou um plano nacional para prevenir o abuso de crianças em rituais religiosos. No início de abril, um pastor evangélico em Santa Catarina foi preso, acusado de pedir que uma menina de 13 anos se fotografasse nua para que ele quebrasse uma maldição.


O que diz a Revelação Espírita

Para analisar tudo isso conforme os conceitos espírita, precisamos antes de tudo desmistificar a crença primitiva de "possessão demoníaca", reclamação primeira para o ato de exorcismo. Para começo de conversa, o Espiritismo nos livrou da ideia errônea da existência de demônio  aquele ser especial e mitológico caracterizado por sua completa e perpétua inclinação ao mal e intento em atentar os homens para arrastá-los ao "pecado" e, por conseguinte, à sua condenação à pena eterna do fogo do inferno.
Segundo a doutrina da Igreja, os demônios foram criados bons e se tornaram maus por sua desobediência: são anjos colocados primitivamente por Deus no alto da escala, tendo decaído dela. Segundo o Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e que, colocados na base da escala, hão de nela graduar-se. Aqueles que persistem em ficar por mais tempo nas classes inferiores — por apatia, negligência, teimosia ou má vontade — sofrem as consequências dessa atitude, e o hábito do mal dificulta-lhes a regeneração. Entretanto, um dia chega para eles o cansaço dessa vida penosa e das suas respectivas consequências; eles comparam a sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está no bem, procurando então se melhorarem, mas por ato de espontânea vontade, sem que haja nisso o mínimo constrangimento.
Allan Kardec - O Céu e o Inferno, cap IX. item 21
Portanto, não há demônios, mas há Espíritos — como qualquer um de nós — que, ainda muito imperfeitos, podem sim atentar contra seus semelhantes perseguindo-os, atormentando-os ou mesmo arrastando para as más atitudes de forma oculta (como os Espíritos obsessores) ou direta (como os falsos amigos e gurus da sociedade). Alguns são muito ardilosos e sutis, outros, violentos e escancarados. A isto, a doutrina trata como obsessão, ou seja, qualquer má influência que um ser (encarnado ou desencarnado) exerce sobre alguém, inclusive involuntariamente.

O estudo mais apurado sobre demônios e as intervenções de obsessores nas manifestações modernas dentro da codificação espírita encontra no livro O Céu e o Inferno de Allan Kardec. Para o estudo das obsessões e suas características, recomendamos O Livro dos Médiuns

Especificamente falando sobre possessão, convém lembrar o processo gradual de formação conceitual de Allan Kardec a respeito. Inicialmente, ele tomou por possessão apenas a definição clássica do termo e assim concluiu:
O vocábulo possesso, no seu significado comum supõe a existência de demônios, isto é, de uma categoria de seres maus por natureza, e a coabitação de um desses seres com a alma de um indivíduo, no seu corpo. Pois que, nesse sentido, não há demônios e que dois Espíritos não podem habitar simultaneamente o mesmo corpo, não há possessos na conformidade da ideia a que esta palavra se acha associada. O termo possesso só se deve admitir como exprimindo a dependência absoluta em que uma alma pode achar-se com relação a Espíritos imperfeitos que a dominem.
Allan Kardec - O Livro dos Espíritos, comentário à questão 474
Mais tarde, na sua obra derradeira A Gênese, Kardec vai reconsiderar sua conceituação e colocar a possessão dentro das possibilidades dos diversos tipos de obsessão, não como um ato demoníaco — visto que essa categoria de ser não existe de fato — mas como má influência premeditada por Espíritos maus, quer dizer, Espíritos imperfeitos e ainda presos aos interesses mesquinhos.
Os Espíritos atrasados rodeiam em torno da Terra, em consequência da inferioridade moral de seus habitantes. A ação maldosa desses Espíritos é parte integrante dos flagelos com que a Humanidade se vê abraçada neste mundo. Por isso, a obsessão — que é um dos efeitos de semelhante ação, como as enfermidades e todas as atribulações da vida — deve ser considerada como provação ou expiação e aceita com essa função.
Chamamos de obsessão à ação persistente que um Espírito mau exerce sobre um indivíduo. Apresenta tipos muito diferentes, que vão desde a simples influência moral — sem perceptíveis sinais exteriores — até a perturbação completa do organismo e das capacidades mentais.

Allan Kardec - A Gênese, 1ª parte, cap. XIV, item 45.
Sem compreender — e sem querer aceitar  a verdadeira natureza do fenômeno de obsessão, e especialmente o de possessão, a igreja e outros segmentos religiosos não têm como "combater" esse mal e "curar" as vítimas. Aliás, o método tradicional de exorcismo — fundamentado na ideia de "expulsão de demônios" — não apenas é ineficaz como também pode ser bastante traumático para os envolvidos.

Um caso verídico de grande repercussão e que terminou em trágicos desdobramentos foi o da jovem alemã Annelisie Michel (1952-1976), retratado no cinema pelo filme O Exorcismo de Emily Rose (estreado em 2005). Anneliese experimentou graves distúrbios psiquiátricos a partir dos 16 anos de idade até sua morte, aos 23 anos, sendo seu quadro clínico composto desde desnutrição secundária à doença mental. Depois de vários anos de tratamento psiquiátrico ineficaz, ela se recusou ao tratamento médico e solicitou um exorcismo. As graves consequências atribuídas ao ritual de exorcismo sobre a jovem motivaram a abertura de um processo criminal pelos promotores de justiça locais contra os pais de Anneliese e os padres exorcistas, causando uma grande polêmica em toda a Europa e dividindo a opinião pública mundial. Tanto os padres que realizaram o exorcismo quanto os pais de Michel foram condenados por homicídio negligente porque renunciaram ao tratamento médico quando do início do tratamento por meio do exorcismo.

Anneliese Michel (1952-1976)
O método de terapia via exorcismo ou qualquer outro tipo de ritual não serve como tratamento e até é motivo de zombaria dos obsessores. "Os Espíritos maldosos riem e se acirram quando eles veem alguém levar isso a sério." (O Livro dos Espíritos, questão 477).


Prevenção e cura

Dentro do processo evolutivo por qual todos os Espíritos passam até alcançar a sua perfeição a interação com seus semelhantes é imprescindível. Como há Espíritos nos mais diversos estágios evolutivos (iniciantes, medianos, atrasados e adiantados), essa interação implica naturalmente que uns exerçam influências sobre outros, tanto para o bem quanto para o mal — o que consiste um benefício (quando podemos nos aproveitar dos bons conselhos dos Espíritos mais adiantados( tanto quanto uma provação (por estarmos sujeitos a perseguição de Espíritos mais inferiorizados).

A possessão, como qualquer tipo de obsessão, requer como prevenção a retidão de pensamentos e atos, que se consegue através das aquisições intelectuais e morais que obtemos ao longo da jornada evolutiva. Em caso de ocorrência de um processo obsessivo, a "cura" depende da gravidade da influência que o obsessor exerce sobre o obsediado. Muitas vezes, o próprio obsediado identifica a má influência e com isso pode por si mesmo administrar a sua autoproteção. Noutras vezes, porém, como em casos de possessão, é necessário a intervenção de um terceiro agente em favor dos dois envolvidos: o obsediado e o obsessor, afinal, são todos irmãos em processo de evolução, carentes de apoio.


Bom lembrar que a obsessão só se sucede sobre aquele que, de alguma forma, abre brecha para a dominação do mau, através de suas fraquezas, havendo assim uma certa simbiose, um prazer compartilhado, entre o agente agressor e o ser passivo.

Diante disso, a mais perfeita terapia contra qualquer obsessão é a conscientização de agressor e paciente a uma nova conduta moral pautada nas virtudes espirituais.

Mas, ainda não é tudo: para assegurar a libertação da vítima, torna-se indispensável que o Espírito perverso seja levado a renunciar aos seus maus costumes; que se faça que o arrependimento desponte nele, assim como o desejo do bem, por meio de instruções habilmente ministradas, em evocações particularmente feitas com o objetivo de lhe dar educação moral. Pode-se então ter a grata satisfação de libertar um encarnado e de converter um Espírito atrasado.
O trabalho se torna mais fácil quando o obsidiado, compreendendo a sua situação, contribui para ele (o obsessor) com a vontade e a prece. Isso não acontece quando o obsidiado fica seduzido pelo Espírito que o domina e se ilude com relação às qualidades deste último e se satisfaz no erro a que é conduzido, porque então, longe de fortalecer a assistência, o obsidiado a repele totalmente. É o caso da fascinação, sempre infinitamente mais rebelde do que a mais violenta subjugação.
Em todos os casos de obsessão, a prece é o mais poderoso meio de que dispomos para desviar o obsessor de seus propósitos maléficos.
Allan Kardec - A Gênese, 1ª parte, cap.XIV , item 46

Um último aspecto também muito válido para nossa análise diz respeito ao valor inestimável da Doutrina Espírita para o enfrentamento dessa questão. A partir do Espiritismo, podemos conhecer melhor a natureza espiritual e então reconhecer com mais facilidade as ocorrências das influências obsessivas espirituais e suas terríveis consequências para as pessoas. Num primeiro momento, os antipáticos ao Espiritismo vieram acusá-lo de provocar obsessões, o que é um absurdo flagrante: a História toda registra más influências espirituais sobre os homens, muitos anos antes da codificação espírita. A pretexto de "evitar" a obsessão, chegou-se a propor a proibição mediúnica:
“Se podem proibir a certas pessoas que se comuniquem com os Espíritos, não podem impedir que manifestações espontâneas sejam feitas a essas mesmas pessoas, pois não podem suprimir os Espíritos, nem lhes impedir que exerçam sua influência oculta. Esses tais se assemelham às crianças que tapam os olhos e ficam crentes de que ninguém vê. Seria loucura querer reprimir uma coisa que oferece grandes vantagens só porque alguns imprudentes podem abusar dela. Ao contrário, o meio de prevenirem os inconvenientes consiste em torná-la conhecida a fundo.”
Um Espírito - O Livro dos Médiuns, cap. XXIII, item 254
Por outro lado, o Espiritismo revela proveitosamente a causa desse grande mal e, como nenhuma outra doutrina, nos oferece hoje os métodos mais eficazes para sua prevenção e tratamento. Enquanto isso, no Vaticano...

domingo, 22 de abril de 2018

Lançamento da sessão "Multimídia" do Portal Luz Espírita


A Luz Espírita acaba de inaugurar a sessão Multimídia em seu portal, listando grandes produções audiovisuais de interesse ao estudo do Espiritismo.

São cinco produção já inclusas na coleção, mas vem muito mais por aí. Por enquanto, você pode saborear os seguintes títulos:
  • Espiritismo à Francesa: a derrocada do Movimento Espírita Francês pós-Kardec
    Um filme-documentário histórico produzido pela Luz Espírita
  • Roteiro Histórico Espírita em Paris
    Guia em vídeo produzido pela Luz Espírita
  • O Espiritismo de Kardec aos dias de hojeFilme-documentário dirigido por Marcelo Taranto
  • A Ciência e as Sessões EspíritasFilme-documentário produzido pela BBC de Londres
  • Final dos Tempos: Evolução Espiritual em tempos de Transição Planetária
    Filme-documentário produzido pela Luz Espírita
A nova sessão pode ser acessada através da opção "Extras" menu principal do portal, veja:


Acesse agora mesmo a sessão Multimídia do Portal Luz Espírita.

Compartilhe essa novidade com seus familiares, amigos e colegas e ajude a divulgar a Doutrina Espírita.

sábado, 21 de abril de 2018

"O passe espírita" por Paulo Henrique de Figueiredo (programa Livre Pensamento)


Allan Kardec era magnetizador? O passe espírita é o mesmo Magnetismo Animal de Mesmer? Qual a real ligação entre Espiritismo e Mesmerismo? O passe oferecido nas casas espíritas é errado?

Essas e outras questões são abordadas com detalhes por Paulo Henrique de Figueiredo durante o programa Livre Pensamento da TV Mundo Maior e Rádio Boa Nova, apresentado por Cláudio Palermo.

Paulo Henrique de Figueiredo é espírita de berço e pesquisador do Mesmerismo (Magnetismo Animal) e da Doutrina Espírita — e ele faz questão de lembrar que estas são duas ciências irmãs, em apoio à definição de Kardec. Ele é autor dos livros Mesmer: a ciência negada do magnetismo animal e Revolução Espírita - a teoria esquecida de Allan Kardec.

Então, vamos ao vídeo do programa:


Não deixe de compartilhar

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Matéria especial: "Céu e inferno: O dilema do Papa Francisco e da Igreja Católica diante da dor do jovem Emanuele — e demais fieis"


Em celebração ao terceiro domingo da páscoa, numa paróquia de Roma, Itália, o papa Francisco abriu espaço para perguntas dirigidas por crianças locais. Dentre elas, um garoto acabou nos braços do papa: em prantos, ele não conseguira fazer a pergunta ao microfone e foi então chamado a aproximar-se do papa a fim de fazer a sua indagação diretamente ao ouvido de sua santidade. A pergunta era por demais íntima — o que talvez explique a impossibilidade de o jovenzinho Emanuele não ter conseguido expô-la — e exigia uma resposta sagaz do chefe da igreja católica. 

E convém refletirmos profundamente sobre isso, à luz do Espiritismo: tanto sobre a pergunta, quanto sobre a resposta.


O episódio

Vejamos primeiramente o vídeo do acontecido:



A pergunta de Emanuele

Uma das crianças escolhidas para fazer perguntas ao santo padre, Emanuele não conseguiu expor sua pergunta abertamente, mas consentiu que sua indagação fosse divulgada ao público — quem sabe, preocupado que muitos outros jovens estivessem tão aflitos quanto ele.
 
Emanuele voltou para o seu lugar junto com as outras crianças e ouviu o pontífice exclamar: “Quem dera todos nós, pudéssemos chorar como Emanuele quando temos uma dor como ele tem em seu coração. Ele chorou por seu pai e teve a coragem de fazer isso na nossa frente, porque em seu coração há amor por seu pai." E contou que o jovenzinho lhe questionou: “Meu pai morreu. Ele era ateu, mas teve todos os quatro filhos batizados. Ele era um bom homem. Meu pai está no céu?”


O que talvez tenha passado desapercebido nesse episódio — porque todo o mundo ficou encantado com a resposta do papa — é o drama por trás dessa pergunta e o a aflição daquele menino, a exemplo de tantos outras, mediante a situação posta: a dúvida da destinação de um ente querido depois da morte. Emanuele pegou o viés mais otimista: indagou se seu pai não estaria no céu, mas, provavelmente, a dúvida que o atormentava era outra, e a pergunta consequente que intimamente ele se fazia era se seu pai estaria no inferno.


Representação gráfica do lendário inferno


O drama do dogma do inferno

Quem mora nos grandes centros urbanos, dada a agitação e o inchaço de atividades do dia a dia, ou mesmo quem viva mergulhado na virtualidade da realidade tecnológica, bem como aquele alheio à religiosidade, talvez ignore que bilhões de indivíduos vivam mergulhados num mundo totalmente diferente, e sobre quem as religiões exerçam uma influência muito forte. Com efeito, bilhões de vidas norteiam-se por suas respectivas crenças e doutrinas, de modo que as tradições e os dogmas religiosos lhes afetam diariamente.

Nessas condições, é de se imaginar que há tantas outras pessoas como Emanuele sofrendo pungentemente por causa de sua fé, por exemplo, diante do dogma do inferno, pois o seu catecismo lhes impõe uma crença aterrorizante. Coloquemo-nos no lugar desse menino e imaginemos o cenário: além da dor de sua orfandade, cogitar que a alma de seu pai amado esteja ardendo nas chamas infernais — e isso por todo o sempre. Ponderemos bem sobre a crueldade desse dogma que, sob a interpretação ortodoxa dos textos bíblicos, se estende aos não batizados, aos suicidas, aos homossexuais, enfim, a todos aqueles que não se enquadram dentro de certos requisitos impostos por uma tal doutrina. Quem pode dizer que não teve em seu seio familiar alguém que desencarnou isento de tantas exigências que as religiões fazem para livrar a alma da condenação do fogo do inferno? Logo, se guardamos afeto por esses desencarnados, como não se afligir com tal possibilidade? Como um filho carente consegue dormir na iminência de saber que seu pai ateu está sob a tutela de um Lúcifer? Como um pai afetuoso sobrevive na iminência de saber que um filho suicida esteja ardendo em chamas e assim permanecerá eternamente? Como uma esposa amorosa poderá pretender ir para o paraíso sabendo que lhe faltará a companhia do seu amado esposo que fora condenado às trevas por não ser batizado?

Foi uma aflição dessa natureza que embargou a voz de Emanuele quando da chance de lançar tal pergunta ao papa.

O que tratamos aqui é precisamente da crueldade que uma crença pode exercer sobre os seus fieis.


O drama do dogma do paraíso

Mas a problemática não se resume somente quanto à ameaça do inferno. O dogma de um paraíso prometido aos "eleitos" — dogma esse característico em praticamente todas as religiões —, adquirível mediante certos requisitos  dentre os quais, por exemplo, sacramentos e sacrifícios —, é também de terríveis consequências, pois que atravanca o curso evolutivo dos indivíduos. Ao invés de buscar seu adiantamento intelectual e moral, o sujeito concentra seus esforços em satisfazer as exigências superficiais de sua crença, na ilusão de quitar suas obrigações para com Deus, comprando a chave de uma porta que não o levará a lugar algum.

Também aí as doutrinas tradicionais perpetuam um grande mal para a o desenvolvimento da humanidade. E isso sem falar de certos conceitos mais extremistas que consideram a "guerra santa" contra os infiéis um atalho bem mais curto para um recanto de delícias.


O sonho dos jihadistas islâmicos com o paraíso e suas prometidas 72 virgens
Por causa dessas fantasias primitivas e perigosas é que muitos "ateus praticantes" dedicam-se a desbancar todo e qualquer conceito de espiritualidade e pregam o materialismo.


A resposta de Francisco

Bem, mas vamos analisar os efeitos da resposta do papa ao garoto italiano.

Disse Francisco: “Que bom que um filho diz de seu pai ‘Ele era bom’. Para que seus filhos pudessem dizer ‘Ele era um bom homem’, ele deve ter dado um belo testemunho a seus filhos. Se aquele homem era capaz de criar filhos assim, é verdade, ele era um bom homem.” E objetivamente respondendo a Emanuele, acrescentou: “Aquele homem não tinha o dom da fé, ele não era crente, mas ele tinha seus filhos batizados. Quem diz quem vai para o céu é Deus”.

Ao dizer isso, o papa admite que desconhece as regras exatas para a salvação — quer dizer, a aquisição do céu. Ou será que essas regras não existam por padrão e a sorte do morto esteja condicionada ao humor de Deus, que ora pode salvar fulano, ora pode condenar sicrano, ainda que ambos estejam em situações semelhantes, o fato de ser ateu, por exemplo? Só por isso sua resposta já seria questionável. Mas tem mais:

Então, Francisco perguntou às crianças: “Mas, como está o coração de Deus diante de um pai assim? Como é isso? O que lhes parece? Um coração de pai. E diante de um pai, não crente, que foi capaz de batizar seus filhos e dar essa bravura aos seus filhos, vocês acham que Deus seria capaz de deixá-lo longe? Vocês acham isso? Acaso Deus abandona seus filhos quando eles são bons?” Depois que todas as crianças responderam “não”, Francisco disse: “Aqui, Emanuele, esta é a resposta. Deus certamente estava orgulhoso de seu pai, porque é mais fácil ser um crente, batizar crianças, que batizá-las sendo incrédulo. Certamente isso agradou muito a Deus”.

Aqui, Francisco exalta o sacramento católico do batismo — rito de iniciação religiosa também validade por outras crenças. E continua: “Fale com seu pai, reze ao seu pai. Obrigado Emanuele por sua coragem.”



Interessante notar que neste ponto o pontífice sanciona — a menos que o dissesse, fingindo, apenas para consolar aquele filho órfão, temporariamente, já que a verdade um dia se revelará o poder da oração pelos falecidos, seja para aliviar seu suposto sofrimento (talvez no inferno, ou no purgatório), seja por considerar que tal reza influenciasse num recurso para alterar a sentença condenatória (e talvez conduzir a alma ao céu).


A reação do público

A reação geral diante da resposta "fofa" do papa é de admiração. Aliás, Francisco é um papa pop justamente por dar respostas "fofas", afetuosas e esperançosas para todos, semeando esperanças de que qualquer um — suicida, gay, abortador, assassino, corrupto, etc. — possa ir para o céu, em contradição com os preceitos da sua igreja.

Essa recepção carinhosa do público tem muito a ver com a intenção de uma fé customizada, ou seja, uma igreja que se modela para agradar a cada fiel, como um "modelo bonitinho de religião" que promova a salvação de todos, relevando todo e qualquer pecado — que o politicamente correto prefere chamar de "estilo de vida". Na prática, o que todo mundo quer é ter liberdade para fazer o que bem quer e mesmo assim encontrar o altar da igreja e a porta da salvação sempre à disposição.

Mas isso não agrada em nada os cardeais. Francisco não deve ser muito amado no Vaticano, que é saturado de conservadores.

Na verdade, o papa Francisco está criando uma tremendo embaraço no seio da igreja católica com suas posturas fora dos protocolos e declarações, por exemplo, como a de que o inferno não é um lugar circunscrito, segundo matéria do jornal italiano La Reppublica (veja aqui).



E a confusão se estende a todos os católicos e mesmo para os teólogos mais exigentes, pois, afinal de contas, tem-se um papa emitindo opiniões particulares em contradição — ou pelo menos em ambiguidade — frente ao catecismo da sua igreja. Daí se pergunta, a propósito: o inferno existe ou não fisicamente, no entendimento doutrinário católico?

Estudiosos que acompanham as notícias do Vaticano têm levantado questões cruciais, tais como: na condição de papa, convém a Francisco tomar posições pessoais não convencionais ás tradições da igreja e emiti-las publicamente? Aliás, pode alguém ser papa e ter opiniões pessoais diferentes das convenções da igreja? Se as opiniões de Francisco divergem dos preceitos do Vaticano, o que há que se fazer?


Evolução do catolicismo

Admitindo a lenda da condição sacra da igreja, podemos imaginar que, acima dos cardeais — que é quem realmente manda na igreja , a pessoa do papa é a mais habilitada formalmente para "receber uma inspiração divina" (vide a tradição interpretativa da fala atribuída a Jesus: "O que tu ligares na Terra será ligado no céu") e com isso promover uma reforma doutrinária do próprio catecismo católico. Desta feita, as "opiniões pessoais" de Francisco não poderiam ser consideradas inspiração divina?

Em caso afirmativo, o que se pode fazer é abrir um concílio e por em debate questões de fé junto ao corpo eclesiástico maior da igreja e, se for o caso, promover as deliberações, pois, a rigor, o papa não pode sozinho mudar os desígnios da sua religião; é preciso aprovação do colegiado dos cardeais. Desde as primeiras deliberações dos apóstolos (ver Ato dos Apóstolos na bíblia), a igreja católica já promoveu vários concílios. O primeiro concílio de Niceia em 325, por exemplo, dentre outras coisas abominou a lei de reencarnação das disposições católicas. O último foi o Concílio Vaticano II, ocorrida em quatro sessões entre 1962 a 1965, cuja expectativa principal era um reformulação no sentido de que a igreja assumisse um papel mais efetivo na sociedade frente a questões sociais e econômicas. No entanto, para a maioria dos especialistas, o evento foi um fracasso; a tão esperada abertura e modernização da igreja não veio dessa vez.

Realizar um concílio é tarefa hercúlia e levar a efeito as proposições que os anima não é tarefa fácil. Dizem, inclusive, que a coisa é bem mais política do que teológica.

Embora aqui e acolá sejam reacesas as esperanças de se ver uma modernização doutrinária no Vaticano, não há, segundo os vaticanólogos, cenário propício a curto prazo. A geração atual de cardeias é maciçamente conservadora. Senão por decorrência de um fato muito extraordinário, não será Francisco que fará esse "milagre", dizem os especialistas. Ele continuará angariando simpatia de fora, mas criando rachaduras dentro do Vaticano.

Isso quer dizer que, provavelmente, por muito mais tempo, o terror do inferno e a ilusão do paraíso prometido continuarão fazendo muitas vítimas.


A versatilidade da revelação espírita

Ao contrário das religiões tradicionais, o Espiritismo não tem dogmas e seus conceitos são dinamizados de acordo com a progressividade das revelações da espiritualidade e com a capacidade humana de compreender as leis da natureza divina. Assim, a Doutrina Espírita está sempre em evolução, como bem definiu Allan Kardec no primeiro capítulo de A Gênese, intitulado "Caráter da Revelação Espírita".
"Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos se apresentam, que não podem ser explicados pelas leis conhecidas; ele os observa, compara, analisa e, remontando dos efeitos às causas, chega à lei que os rege; depois, deduz as suas consequências e busca as aplicações úteis. Não estabeleceu nenhuma teoria preconcebida; assim, não apresentou como hipóteses nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o perispírito, nem a reencarnação, nem qualquer dos princípios da doutrina; concluiu pela existência dos Espíritos, quando essa existência ressaltou evidente da observação dos fatos, da mesma maneira que os outros princípios. Não foram os fatos que vieram posteriormente confirmar a teoria, mas a teoria que veio depois explicar e resumir os fatos. Portanto, é rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação e não produto da imaginação."
Allan Kardec, A Gênese - cap. I, item 14 
O processo evolutivo no Espiritismo é natural: a verdade se mostra e a doutrina a absorve naturalmente.

E as luzes da verdade já têm suficientemente clareado a Doutrina Espírita sobre conceitos capitais, tais como a lei do progresso e das múltiplas existências reencarnatórias a fim de fazer o Espírito evoluir e, por conseguinte, elevar-se a esferas superiores, derrubando assim teses primitivas como a do inferno eterno e a do paraíso de uma infértil contemplação.

As penas eternas das igrejas e as sentenças sumárias e lendárias de salvação e condenação estão satisfatoriamente respondidas na magnífica obra O Céu e o Inferno de Allan Kardec. Aqui encontramos esmiuçados todos os detalhes das teorias que sustentam as crenças primitivas de um lugar físico propriamente destinados ao castigo eterno e de um lugar de delícias e perpétua adoração a Deus (e desdém de tudo o mais) devidamente confrontados, de modo que, um exame dedicado e honesto da obra kardequiana não permite enganos.

O item "Código penal da vida futura" dentro do capítulo VII da primeira parte da obra resume de forma brilhante os princípios espíritas sobre essas questões, sendo o sumo de tudo esses três pontos:
  1. O sofrimento é de acordo com a imperfeição. 
  2. Toda imperfeição, assim como toda falta gerada dela, traz consigo o próprio castigo nas consequências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que seja preciso uma condenação especial para cada falta ou indivíduo. 
  3. Como todo homem pode se libertar das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade. A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: tal é a lei da Justiça Divina.
Allan Kardec, O Céu e o Inferno - 1ª parte, cap. VII

Mas, obviamente, é preciso ter "olhos para ver" e "ouvidos para ouvir" para compreender estas coisas. A nosso favor, dentre outras coisas, está a certeza de que toda a verdade será conhecida um dia, e a verdade a todos libertará.

Oremos, com todo o espírito de caridade, por nossos irmãos ainda eclipsados pelo dogmatismo das crenças!

segunda-feira, 16 de abril de 2018

18 de abril: aniversário do marco inaugural da Doutrina Espírita


Há exatos 161 anos, portanto, em 18 de abril de 1857, as luzes do Espiritismo, sistematizado na Doutrina Espírita, eram lançadas oficialmente através de um compêndio intitulado O Livro dos Espíritos assinado por um até então desconhecido autor: Allan Kardec, publicado e apresentado ao público na galeria do Palais Royal, o mais importante centro de discussão sócio-político de Paris, França.

Palais Royal (Paris, França)
O LIVRO DOS ESPÍRITOSPalco de históricos acontecimentos, em meio aos seus clássicos cafés sociais, aquele palácio então deu vez a exposição de uma obra que revolucionaria aquela geração, sendo o marco de uma Nova Era para a Humanidade, pois que trazia o sumo da mais extraordinária novidade do Século XIX: os fenômenos espirituais, que deram partida ao movimento que ficou registrado como Espiritualismo Moderno — conforme se lê em Arthur Conan Doyle.


As manifestações dos Espíritos eram abundantes, tanto naquela França quanto em todas as partes do Mundo. Porém, delas, basicamente, só serviam os curiosos, os místicos e os interesseiros. As pessoas consideradas sérias temiam envolver-se com tais ocorrências — seja pelo terror que a Igreja fazia, em oposição às manifestações, seja pela banalidade com que comumente se tratava seus efeitos. O que se via  de comum era o jogo de perguntas e adivinhações junto aos Espíritos nos espetáculos rotulados de Mesas Girantes.


Sessão de Mesa Girante com a médium Linda Gazzera
Apesar dessa frivolidade, aos olhos de todos, inegavelmente, no fundo havia sim um elemento interessante nos fenômenos extrafísicos, faltando apenas alguém que, com seriedade, tomasse a dianteira e ousasse perscrutá-los — desafiando o clero e o choque de reputação. Esse pesquisador pioneiro e destemido então foi Allan Kardec.


Allan Kardec
Doravante O Livro dos Espíritos, homens nobres da política, dos quarteis, das academias de ciências e, enfim, de toda a sociedade parisiense, passaram a examinar com mais atenção o que a espiritualidade vinha bradar aos terrenos, que estavam então mergulhados num profundo materialismo — seja por descrédito às crenças (especialmente em virtude dos abusos cometidos pela opressão religiosa da Igreja Católica e pelo assustador fanatismo dos reformistas protestantes), seja em virtude da ilusão de um bem-estar humano a partir da Revolução Industrial e das novas doutrinas filosóficas inauguradas com o Iluminismo.

A Doutrina dos Espíritos trazia soluções simples e racionais para as grandes questões filosóficas que intrigavam a Humanidade desde os clássicos gregos. Sua mensagem de ética e de moral, resgatando a Boa Nova do Cristo, tocou os corações dos pensadores vanguardistas, aqueles realmente inclinados à reflexão intimista e ao bem comum. Seus conceitos referentes às capacidades e ao exercício da mediunidade especialmente vieram como salva-guardas para os médiuns e seus entes queridos — ambos aflitos pelo desconhecimento das faculdades e, principalmente, pelas consequências dos efeitos das manifestações, que na maioria dos casos, eram involuntários da parte dos sensitivos. O Espiritismo vinha explicar e regular o ofício seguro dos médiuns, livrando-os da acusação de loucura, demência, satanismo e charlatanismo.

Embora o trabalho tenha sido inspirado e administrado pela espiritualidade, deve-se a Allan Kardec os créditos da codificação do ensino dos Espíritos. Com sua esplêndida capacidade pedagógica, ele copilou de forma metódica os elementos básicos da nova Revelação, de maneira que prática e ao mesmo tempo consistente, permitindo que todos se beneficiem das propostas da Nova Era, sem permitir contradições que afetem a engenhosidade do sistema, garantindo que finalmente se possa ver nas leis da natureza divina os princípios de sabedoria, justiça e bondade — ao contrário do que as religiões e seitas plantaram da figura de Deus.

É bem verdade também — e infelizmente — que houve oposição: não por conceito ou razão filosófica, mas por sistema, por interesses variados. Conforme fora prenunciado, uma grande investida foi lançada contra o Espiritismo e, especialmente em decorrência de duas grandes guerras mundiais — sem contar a sorrateira Guerra Fria —, a França e, por conseguinte, a Europa inteira praticamente arremessou a Revelação Espírita às fileiras do misticismo.




Saiba mais sobre Espiritismo na Enciclopédia Espirita Online.

Conheça os lugares mais importantes para a História do Espiritismo através da viagem virtual do vídeo Roteiro Histórico Espírita em Paris.


Não deixe de conferir também a série de videoaulas Aprendendo Espiritismo.


Cabe a nós, espíritas, a cada novo 18 de abril hastear a bandeira de nossa venerável Doutrina e propagar a iluminação que o Espiritismo derrama à Terra. Portanto, mobilizemos em massa os conceitos kardecistas nas mídias, nas praças, nas ruas e, acima de tudo, em nossas consciências.

Compartilhe e ajude a divulgação da nossa doutrina.

Seminário "Saúde Mental e Espiritismo" com Dra. Anete Guimarães


Mais uma bela e instrutiva exposição da Dra. Anete Guimarães, uma das mais renomadas ativistas espíritas da atualidade, especialmente dedicada a estudos comparativos dos conceitos da Doutrina Espirita com as normas da ciência moderna.

Nesta oportunidade, temos Dra. Anete abordando o tema "Saúde Mental e Espiritismo", durante seminário realizado em 10 de fevereiro deste 2018, no 36º CONRESPI de Orlândia-SP.

Dedique um tempinho e confira então esse proveitoso seminário:


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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Espiritismo e palavrão: vamos falar sobre isso?


O jornal inglês Daily Mail publicou a matéria "O segredo do sucesso é o xingamento: como palavrões podem te fazer mais forte" reportando uma pesquisa realizada pela Universidade de Keele, Inglaterra, demonstrando — segundo sua apuração — que o uso de palavrões distrai e alivia dores, tal como traduziu o portal de internet Terra na reportagem "Falar palavrão é uma forma de aliviar a dor", repassando a ideia como uma prescrição de saúde. Já a revista Superinteressante, em sua matéria "A ciência do palavrão", vai vender a receita como uma "evolução da linguagem". O que se viu, em seguida, foi uma verdadeira celebração apológica a esse hábito, contemplando a satisfação daqueles que o praticam com naturalidade.

Mas, para nós, espíritas, que valor — positivo ou negativo — tem o palavrão? O Espiritismo tem algo a ver com tal tema? A Doutrina Espírita censura tal hábito?



Uma reflexão etimológica sobre palavrões


Segundo os dicionários clássicos, entre outras acepções, 'palavrão' é uma expressão obscena e/ou grosseira. É, portanto, um calão, ou seja, é uma gíria caracterizada por um padrão de linguagem baixo e ofensivo. Neste caso, dizer "palavrão de baixo calão" é um pleonasmo, uma vez que não há "alto calão". Inclusive, nas avaliações linguísticas, é considerado uma forma inadequada e reprovável, exceto por licença poética (quando sua menção é usada para figurar uma situação e não como comunicação direta).

Note-se aí que esse tipo de palavreado consiste basicamente de duas vertentes: a primeira é a da ofensividade, pois que o palavrão é, em si mesmo e no contexto em que é expresso, uma forma de ofender alguém e de alguma forma agredi-lo; a segunda característica comum do palavrão é a da obscenidade, pois que pretende ofender atacando o pudor, tomando a sexualidade como instrumento de rebaixamento.

Um terceiro elemento que pensamos ser apropriado agregarmos às características tradicionais do palavrão é o da anarquia, pois que o palavreado também é comumente uma ato de rebeldia contra a ordem e a moral. E, aliás, infelizmente, está muito em voga ser contra a ordem — todos os níveis de ordem —, uma faceta bastante bandeirada por muitos ativistas do ateísmo.




Uma forma de linguagem descolada?

O movimento da modernidade (que não é exatamente um sinônimo de evolução) tem apontado outras interpretações  digamos  suavizadas para o uso de palavrões, dentre as quais, a que promove o conceito de intimidade e mais autêntica expressão de emotividade.

O sujeito "descolado" é aquele "desce ao nível do povão", que se enturma com os "simples" e permite a intimidade entre os seus semelhantes, que deixa ser chamado por termos chulos sem se ofender. É assim que, quando uma celebridade mais recatada "se solta" e fala um palavrão na TV, todo mundo acha graça e aplaude a "humildade" dessa pessoa.

Por outro lado, o palavrão é entendido por outros como uma forma de expressar o que realmente a pessoa esteja sentido, seja uma raiva profunda, seja um êxtase; seria uma maneira de extravasar, de "pôr para fora todo o mal de dentro de si". É assim que a pessoa esbraveja alegando "eu sou posso ser rude, mas eu sou sincero" (como se sinceridade fosse incompatível com gentileza); é assim que um jogador comemora um gol com um palavrão a pretexto de provar que é importante para ele; é assim que os adultos acham engraçado quando uma criança fala um palavrão, pela alegação de que é uma criança "de personalidade".


O fato é que palavrão virou interjeição popular e refrão quase imperativo na escola moderna das artes. Veja-se como é habitual nas músicas da hora e nas mídias eletrônicas. E vai além da "plebe": durante investigações da operação Lava Jato, escutas telefônicas de políticos e autoridades dos mais altos níveis desnudaram os bastidores podres de muitos figurões, e o uso aí de palavrões é uma praxe. Mais uma "vergonha nacional".

Seguir na contramão desse "modernismo" hoje em dia é então atravessar um campo de espinhos, pois, normalmente, o mais elegante que talvez alguém diga é que você é um "careta", um "frescurento" e um "falso moralista". Atreva-se você a fazê-lo numa rede social, onde palavrões são recorrentes como forma de expressão "democrática": se o fizer, provavelmente sofrerá um virtual linchamento público.


O valor das palavras

Em dado momento, os Espíritos declararam a Allan Kardec:
“As palavras pouco importam para nós. Cabe a vocês formular a linguagem da maneira que bem entendem. Quase sempre, as vossas controvérsias vêm de não se entenderem acerca dos termos que usam, por ser incompleta a vossa linguagem para explicar o que não estão ao alcance dos sentidos.”
O Livro dos Espíritos, questão 28.
Não se segue daí, porém, que a forma de linguagem deixe de ter importância ou em nada implique quanto ao nosso desenvolvimento espiritual. Aliás, ao contrário, também lemos na codificação espírita que a qualidade da linguagem é um valioso indício para medirmos o nível evolutivo dos indivíduos, veja:
Reconhecemos a superioridade ou a inferioridade dos Espíritos pela linguagem de que usam; os bons só aconselham o bem e só dizem coisas proveitosas; tudo neles confirma sua elevação; os maus enganam e todas as suas palavras trazem o cunho da imperfeição e da ignorância. Os diferentes graus por que passam os Espíritos se acham indicados na Escala Espírita. O estudo dessa classificação é indispensável para se apreciar a natureza dos Espíritos que se manifestam, assim como suas boas e más qualidades.
O Livro dos Médiuns, 1ª parte, cap. IV, item 49, tópico 10
E não é menos oportuno lembrar as palavras do Cristo:
"A boca fala daquilo que está cheio no coração"
Mateus, 12:34
Com efeito, a Doutrina Espírita nos esclarece que as palavras que emitimos estão saturadas de energias e vibram em consonância com a assimilação que se faz em uma comunicação; a qualidade dessas vibrações certamente são determinadas em sua maior parte pelo sentido do que se transmite, mas também não desdenha a forma, pois que essa forma — que configura a linguagem empregada — é ainda uma assimilação das capacidades e qualidades do emissor. Isto posto, a aplicação de termos tão mesquinhos só tende a desarmonizar o ambiente, por melhor que sejam as intenções por trás das palavras.


Por uma postura mais espírita...

É lastimável que haja espíritas que façam uso desse expediente e isso muito denigra o movimento que promove o Espiritismo. Não se supõe que nas esferas superiores algo tão desprezível e nojento se efetue, tal a razão de não termos registro de personagens nobres como Kardec, Bezerra de Menezes, Chico Xavier e muito menos os instrutores desencarnados rasgando o verbo dessa natureza. Por extensão, não seria plausível pensarmos que Jesus o tenha feito — nem  mesmo durante o dito episódio da expulsão dos vendilhões do templo. Por isso, é de se estranhar que um cristão admita tal prática sem qualquer constrangimento.


A palavra é um veículo poderosíssimo em nosso mundo, que tanto constrói quanto destrói, dependendo de como ela é usada; pode agregar valores e elevar a sintonia entre os interlocutores como também pode desagregar coisas e disseminar coisas extremamente nocivas, por exemplo, raiva, ódio e banalidade e anarquia.

Uma postura espírita não condiz com artifícios tão rudes. Espiritismo é, por assim dizer, escola de evolução que nos convida a boas lições alicerçadas sempre na boa linguagem, onde, portanto, o palavrão é um intruso indesejado.

É formidável o léxico das línguas modernas, dentre as quais o nosso idioma português: dispomos então de um riquíssimo repertório de expressões, um vocabulário linguisticamente bem estruturado suficientemente capaz de verbalizar as mais extremas emoções, que não nos incite a utilizar o recurso baixo dos palavrões.

E se é para extravasar, para aliviar a tensão, a dor, a ansiedade; e se é para controlarmos nossa raiva, nosso ódio, certamente que não podemos convir que a válvula de escape seja exatamente um fonte promotora de coisas tão vis e repugnantes como é o palavreado de uma linguagem de baixo calão. Para isso, há terapias muito eficientes e produtivas para o paciente e para o meio em que esteja inserido.

A propósito, vale relembrar uma análise de Divaldo Pereira Franco sobre a mesquinharia espiritual do uso de palavrões:


Lembremo-nos igualmente da fala prudente de André Luiz:
"Não nos esqueçamos de que a gentileza e o respeito, no trato pessoal, também significam caridade."
Sinal Verde, (André Luiz )psicografia Chico Xavier - cap. 28
Diante de irmãos menos esclarecidos e desatentos ao imperativo da gentileza e do respeito, cumpre-nos a caridade em forma de tolerância e, se a ocasião for favorável, um gentil convite a uma melhor postura, de forma a animá-lo sem constrangimento.

E quando, enfim, conseguirmos elevar o padrão de nossa linguagem a um nível maior de gentileza, e menos grosseria e obscenidade — portanto, sem palavrões , teremos inequivocamente dado um passo ao ápice da Nova Era, a Era da Regeneração.

Vamos assumir e compartilhar essa nova postura?